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priedade sua, vendem os Estados á usurpação napoleonica, ou, abandonando os subditos aos horrores da guerra, desertam do posto de honra e fogem para o Brazil.

Sobrevêm então a epoca gloriosa em que, para honra das qualidades da raça — de cuja mascula

energia jamais se deve descrêr — os povos ibericos, livres da odiosa presença dos reis, se organisaram livremente para a defesa, e, desvanecidos como fumo os sofismas do absolutismo, se lançaram a uma luta que podia ter sido prodiga em resultados.

O cezarismo, imposto mas não acceite, tinha dado tudo quanto d'ele se podia esperar e tornava-se necessaria uma renovação. Os povos não podiam continuar á mercê da imbecilidade centralista, e, sem que todos compreendessem a urgencia do remedio, todos sentiam a existencia do mal.

Era uma sensação insuportavel de que toda a raça latina sofria. O movimento iniciado no culo xvi tinha falido, e como todas as correntes que por mais ou menos tempo avassalaram o espirito humano; como o paganismo, como a cultura cristå dos tempos imperiaes e como a chamada civilisação gotica, estiolava-se á espera de uma reacção inevitavel e fecunda.

Esse desiderato julgou realisa-lo a revolução francêsa decapitando um rei fraco e uma rainha gentil. Surgindo como tempestade de sangue, vingadora de muita opressão, castigo de muitos crimes, quiz pôr termo violentamente a um estado de coisas inaguentavel, mas, substituindo a tirania monarquica pela tirania republicana, sem modificar essencialmente o espirito das instituições ; tirando á autoridade a aureola do direito divino para a revestir com a da vontade nacional, mas sem lhe modificar os atributos omnimodos; nada fez, como logo se viu assim que,

se

sem modificar as ideias do movimento, um imperador poude substituir um directorio e implantar de novo o ideal do Cezar depois de alguns annos de anarquia e arbitrariedade.

Era necessario um movimento mais profundo que ainda não tinha vindo; o doente, a sociedade europeia, não fez com a revolução politica mais do que mudar de posição, porque só uma profunda revolução de ideias podia produzir a renovação desejada e essa revolução ainda se não havia dado.

A renovação deu-se mais tarde. Não quando os homens a quizeram provocar, mas quando chegou a hora. Não quando muitos julgaram, mas quando quasi todos a não aperceberam.

As epocas historicas não terminam como tragedias que, caindo o pano, são cortadas bruscamente. Não as faz morrer a vontade humana, não as aniquila, a violencia. Extinguem-se lentamente como ferido que perde o sangue; entram na agonia quando já nasceu e muitas vezes atingiu a virilidade a que as deve substituir. As epocas sobrepoem-se; prolongase uma quando já começou a outra; são como traço iniciado a tinta azul e que, continuando em vermelho, tem n'um ponto uma côr indeterminada : nem cerulea, nem rubra.

É inutil querer cortar a marcha dos successos. Tempo perdido, energia desperdiçada querer pôr termo bruscamente a um ciclo da vida da humanidade. As revoluções provocam reacções; a evolução vae levando as idades e os povos como barcos que, deslisando sobre um rio, lenta mas seguramente vão progredindo e que, passando uma vez sob uma ponte, nunca mais por ali tornam a navegar.

O barco que ora deslisa pode parecer-se muito com qualquer outro que o precedeu; aproveitando as lições dos que antes d'ele marearam, pode o timoneiro d'este afastar-se da esteira d'aquele que á sua frente caminha e seguir a manobra de outro que já distante vae; igual nenhum existe, absolutamente identico em sua marcha nenhum ha.

Além d'isto, nenhuma epoca, por má que seja, deixa de ter alguma coisa boa; instituição cu escola alguma deixa de ter algo aproveitavel: a destrucção sistematica é um absurdo. Dava-se esta verdade com o movimento iniciado pelo cezarismo que, no seculo xvii especialmente, se havia revestido de grande nobreza que não era desaproveitada para a humanidade, e a Revolução, inorando isto, inorando que, como diz Maeterlinck, « a alma do aldedo moderno analfabeto e rude, não seria o que é se Platão não houvesse escrito ha seculos, todas as obras que escreveu », feriu de morte essa distinção e essa beleza ; inutilmente porque não foi capaz de criar nada novo.

Aos gritos das multidões brutaes clamando:

Ça irá, ça irá
Les aritoos à la lanterne!

fez-se a revolução republicana e, triste ironia !, aqueles vociferadores, que não sabiam grego, sem querer disseram a verdade e tudo quanto era άριστος, isto é: tudo quanto era belo, superior, distinto, feigio constituitiva do άριστοκρατικώς e da άριστοκρατεια desapareceu para dar lugar a algo feio e sujo, ao reinado d'aqueles que, como algures diz Nietzsche, « filhos de mulheres que vendiam seus favores e de trapeiros mal cheirosos », levaram ao governo os mais baixos instintos de uma humanidade ineducada, sem poderem resgatar suas culpas com a implantação de povo espirito directivo

que

ainda estava por criar.

Contudo, como todas as coisas violentas e que

um

oferecem as aparencias do grandioso, o movimento revolucionario francês prendeu a atenção dos intelectuaes das nações latinas, não faltando em Espanha quem, por amôr a ele e na esperança de

que

isso representasse uma benefica inovação na vida politica, o perfilhasse pondo-se ao lado de Napoleão que com a força das armas propagou pela Europa os ideaes da republica. Eram esses os afrancesados, o principe de Masserano, os duques de Mahon e de Sotomayor, os condes de Campo de Alanje, de Cabarrús, de Guzman, de Teba, de Cancelada, de Moctezuma e de Casa-Tilly, os marquezes de Virués, de Benavente, de Bedmar, de Guardia Real, de Bendaña, de Arnera, de Mazarredo, de San Adrian, o barão de Cheste, os generaes Navarro Sangran e O'Farril, o Padre Hervás y Panduro, os Azauza, Gómes de Terán, Cambronero, Meléndez Valdés, Estanislao de Lugo, Bernardo de Iriarte, Gonzalez Arnao, Antonio Conde e tantos outros que, representando indiscutivelmente uma parte escolhida da sociedade espanhola, se colocaram sob as bandeiras de José Bonaparte, em quanto o povo, a plebe inorante mas de instinto certeiro, não anuindo a uma substituição em que não via vantagens, se lançava ao campo, com as armas na mão, para aproveitar a liberdade da guerra organisando-se pelas regiões.

Patenteou-se então como tudo quanto tem suas raizes no ser nacional, tudo quanto é feição idiosincratica de um povo, renasce no primeiro momento oportuno ainda quando por muito tempo a violencia o pareça ter domádo. Em Portugal, onde com o auxilio inglês se planeou a resistencia ás armas da França, havia uma cabeça que dirigia o movimento, em Espanha não. Foram as regiões, a Catalunha, o Aragão, as Castelas, Extremadura, Andalusia, que expontaneamente e como conjuntos organicos se ergueram sem previo consenso, não como uma nação que se defende mas como muitas nações que se aliam.

Voltou-se por um momento ao belo periodo constituinte da Idade Media, ao da luta com os sarracenos em que um ideal bastava para unir o que as diferenças mesologicas separavam. Com todas as vantagens da Reconquista fez-se a guerra da independencia, o invasor não podia ferir a cabeça do corpo iberico que lhe fazia frente, a hidra hispanica reaparecera com a fecunda anarquia de aqueles momentos, policefala mas com um só peito, um só coração: 0 velho coração iberico que, então como nove seculos antes, batia com a mesma fé, a mesma crença que mil contingencias não tinham podido extinguir.

E os exercitos francêses foram vencidos pela primeira reacção regionalista da Espanha. Os que exterminavam o povo de Madrid tiveram de sofrer com a resistencia do de Saragoça, os que crivavam de balas as muralhas de Gerona capitularam em Bailen e, de qualquer modo que se huuvessem apresentado os successos, o resultado final tinha de ser sempre o mesmo; as Marchas espanholas seguiam o caminho já uma vez palmilhado e se as margens do Mapsanares tinham tido a fortuna de ser a Covadonga de onde saíu o primeiro grito contra o invasor, Las Navas e o Salado não podiam estar longe e Granada forçosamente havia de se encontrar ao fim.

Grandes lições continha a resistencia que o povo espanhol ofereceu ao invasor francês. Bem examinada, podia-se ter visto n'ela o remedio que se procarava, o remedio que se impunha contra os males inegaveis de dois seculos de decadencia absolutista: estava ali, nas bases fundamentaes da civilisação iberica, na fé e no regionalismo, as duas unicas forças actuantes d'aquela epopeia e de todas as epopeias de que é rica a historia peninsular.

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