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« Não só como centros da liberdade e campos neu. traes, onde se elaboram os grandes problemas da civilisação longe das ambições e das preocupações d'uma politica de dominação, os pequenos estados são necessarios á Europa; podem tambem os pequenos estados, cuja independencia as nações civilisadas garantam, servir pela sua neutralidade reconhecida de barreira entre os grandes estados : diminuindolhes os atritos e tirando-lhes muitos dos pretextos de invasões e usurpações de territorio. Não foi este o principio que levou a Europa a pôr sob a sua salvaguarda colectiva os principados do Danubio ? Se entre a Alemanha e a França se interpozesse uma linha continua de pequenos estados independentes e neutraes, como a Belgica, o Luxemburgo, a Saissa, não haveriam diminuido muito as probabilidades de guerra entre as duas nações ? »

Foi este, desde então, o criterio fundamental que presidiu as relações dos povos. A luta entre a teoria das raças e a teoria das nacionalidades teve fim nos campos de batalha da guerra de 1870 e epilogo nos ainda recentes massacres de Mukden Port-Arthur; terminando pela victoria da segunda.

Ao mesmo tempo, como para mais e mais afirmar o triunfo do espirito moderno sobre os falsos preconceitos que inspiraram trezentos annos de monarquia absoluta, em quasi todas as grandes nações da Europa iniciou-se o forte movimento regionalista das pequenas nacionalidades que, com ou sem condições de vida independente, faziam valer seus direitos ao que, dando ás palavras o seu verdadeiro sentido, podemos chamar self-gouvernement.

Foi no Reino Unido a questão irlandêsa; na Austria a tcheque, a hungara e a italiana; na Alemanha a polaca ; na Russia a polaca e a finlandesa; na Tarquia os graves problemas de Macedonia e Creta, e,

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por toda a parte, uma aspiração latente, uma aspiração geral de todas as inteligencias, compreendendo que se tinha ido demasiado longe no caminho da unificação, e sentindo que, ainda quando a unidade seja um ideal simpatico, a liberdade tem direitos incontrovertiveis e necessariamente respeitaveis.

Expressão d'este sentir foi, entre os povos latinos, um livro exotico de auctor desconhecido e titulo eni. gmatico, onde se lançava a extranha ideia da fundação d’uma grande federação latina, tendo Marselha como capital e centro.

Esta obra, intitulada Hachich e atribuida, talvez erradamente, a Lamartine foi o verbo das tendencias dos povos que submetidos, como os corpos celestes, a duas leis ineludiveis: a da atracção e a da repulção, procurando sempre e simultaneamente a unidade é à independencia — expressões antiteticas mas cessarias á vida e ao progresso,

desejam harmonisar a independencia com a unidade, reunindo os Estados em amigavel laço que una mas não afogue, em amorosa união que fortifique todos sem escravisar

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Como marco miliario colocado no caminho das ideias Hachich, a obra d'um sonhador, marca o inicio da transformação, lenta mas segura, do principio das raças aproximando-se e dando uma justa parte ao das nacionalidades.

O pan-slavismo, que até ali tinha servido aos interesses moscovitas, modifica-se radicalmente, dando logar entre os povos slavos do sul a uma corrente de ideias favoravel á federação destinada não só a salvaguardar os interesses da raça, mas, sobretudo, a opor-se aos ideaes absorventes da politica russa. Na Inglaterra, sem que o principio da união seja posto em duvida, o autonomismo irlandez encontra um defensor em Gladstone primeiro, e em Campbell-Bannerman depois. E, por fim, o proprio pan-germanismo compreendendo as razões que levaram Palacky, o historiador da Bohemia, a afirmar que « se a Austria não existisse, seria preciso inventa-la », modifica a linguagem dos seus leaders e modera os seus planos, não incluindo n'eles a destrução do imperio que serve de união entre o oriente e

o ocidente, que constitue uma barreira entre duas raças necessariamente inimigas e é para os cristãos do oriente a melhor garantia d'uma proteção eficaz.

Por esta forma, o principio das raças e o das nacionalidades completaram-se. Tendo ambos por base o estudo positivo dos povos e sinificando ambos o respeito unanime da nossa epoca por um principio superior que ocupa nas ciencias politicas o lugar que antes estava reservado ao empirismo, estes dois movimentos, desde que o primeiro se modificou, chegam a constituir em sintese um unico movimento que, sendo um protesto contra o cezarismo que pela força das armas

ou pelo maquiavelismo da politica integrou nas grandes monarquias as antigas nações formadas pela invasão nordica, tem servido simultaneamente de ocasião, como espada de dois fios, tanto para revoluções nacionaes como para a constituição de imperios, tornando-se sensivel quer pelos protegtos platonicamente eloquentes ou terrivelmente sangrentos dos oprimidos, quer pelas divagações especulativas dos homens de gabinete que, apoiando-se n'uma etnografia mais ou menos convencional, desejam proceder a novas e cientificas demarcações de fronteiras.

De ahi a sua importancia que convinha deixar consignada nas paginas d’um trabalho que será como o Livro Branco d’uma questão que tem por base o direito dos povos á liberdade.

A França e a Espanha, federações de nacionali

dades a quem o acaso uniu, não ficaram estranhas ao movimento descentralisador que animava a Europa.

N’uma como n'outra, aos sentimentos regionalistas de algumas provincias juntaram-se os ideaes politicos e religiosos que levaram a Vendéa, sob a espada dos chouans, e as Provincias Bascas, sob a de D. Carlos de Borbon, a recorrer ás armas. Servindo a fé, qual succedeu na Polonia e na Irlanda, de estimulo ao patriotismo de região, o anti-unitarismo encontrou em ambas um terreno singularmente propicio á cultura.

Não podia ser d'outro modo. Nações onde o tradicionalismo está fortemente enraizado; onde, qual succede na França, ha regiões como a Bretanha que, sintetisando os seus ideaes na áltiva divisa A Plus da casa de Rohan !, não esquecem um passado de independencia; onde, qual succede em ambas, as diferenças de raça e de idioma já são suficientemente grandes para cavar abismos, as scisões moraes são sempre faceis se não existe uma forte unidade de aspirações, crenças e interesses : inevitaveis se o governo central envereda por caminhos que repugnam aos que, coactos por uma união que alguma vez o foi — deixa de ser voluntaria, se vêem obrigados a segui-lo.

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Estas duas palavras representam as seculares revindicações á coroa de Bretanha feitas durante muito tempo pelos Senhores de Rohan que, descendentes de Eudes II, casado com Berta, filha de Conan iii, duque de Bretanha, a ela tinham direito. O insuccesso d'estas pretenções — formuladas desde o pacto que uniu a Armorica á França deu logar á tão conhecida como arrogante divisa que se lê no teto d'um dos salões do castelo de Josselin :

Roi ne puis.
Prince ne daigne,
Rohan suis.

Contudo, não se pode dizer que o movimento paramente regionalista, exclusivamente regionalista, quer n'uma quer n'outra nação, tinha tido origem nas regiðes que, como a Bretanha e a Baskonia, mais se singularisam, dentro da unidade nacional, pela sua diversidade etnica e pela sua oposição á politica inperante entre as oligarquias governamentaes de Paris e Madrid.

O grito partiu de outro ponto, e, como quasi sempre succede, a literatura foi o genesis do movimento provocado pela voz que, adorando a terra que a tinha visto nascer, soube intrepretar os sentimentos que animam as almas dos filhos da terra latina, dos homens que possuindo simultaneamente na sua historia a tradição autonomista do municipio e a da união estreita em que sob o dominio de Roma estiveram, querem ver-se unidos, federados n'um grande laço moral, mas livres na propria casa.

Mais uma vez foi a arte, a poesia, que iniciou uma acção social e politica.

Nas margens do Rodano e sob as vetustas oliveiras de Maillane, na edenica Provença, terra de poetas, de musicos e trovadores, região toda cheia de cavaleirosas lendas de torneios, de poesia e de amor, elevou-se uma canção de notas magicas e entusiastas que ecoando de Marselha à Arles, de Tarascon a Beziers e de Aix a St. Remy, se fez ouvir em Paris deixando atonitos os unitaristas estreitos e rigidos da republica una e indivisivel.

CAPITULO III

A renovação provençal

Despreso absoluto por esse hieratico e frio classicismo tanto tempo acatado pela Europa; a liberdade

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